terça-feira, 30 de agosto de 2016

Sobre o filme Batman v Superman: A Origem da Justiça

Obs.: A resenha a seguir possui alguns spoilers do filme.



Eu li o seguinte comentário sobre os filmes do Universo Expandido Cinematográfico da DC (vou chamar aqui de DCEU):
"O grande problema é que analisam os atuais filmes da DC como se fossem escolhidos na corrida para o Oscar. Por estarem acostumados com o padrão Marvel, eles querem fazer uma crítica aprofundada naquilo que é diferente."

Ainda não posso falar sobre Esquadrão Suicida, mas posso falar sobre Batman v Superman: a vantagem que a Marvel tem é que mesmo seus filmes medianos, presos àqueles enredos formulaicos e pouco inventivos, funcionam para o que se propõem.
Aparentemente os do DCEU propõem algo diferente, mas que não funciona. Não funciona como filme de herói e nem como filme.

Não é questão de "fazer crítica aprofundada no que é diferente". Diferente é O Homem Duplicado, Inverno de Sangue em Veneza, Alien - O 8º Passageiro (pelo menos na época em que foi lançado era), Um Corpo que Cai, Laranja Mecânica, Amnésia... Esses filmes são diferentes e funcionam.
Agora, como diria Robert McKee, o diferente pelo diferente é tão vazio quanto o comercial formulaico.
Não importa o gênero ou a proposta: há uma forma (forma aqui é bem diferente de fórmula) correta de se construir personagens. E desde o "Homem de Aço" essa forma nunca foi atingida pelos novos filmes do DCEU.

Honestamente, eu tentei assistir o filme duas vezes antes de conseguir terminá-lo sem dormir.
É um filme cheio de ideias boas desperdiçadas em personagens rasos, frases de efeito mal construídas colocadas lá só para fazer parecer que os diálogos são inteligentes - e o efeito é contrário, um vilão caricato, sem motivação nenhuma (não, ele não tem motivação, aceite), sem carisma, sem nada que se aproveite para dizer "Nossa, é um plano muito grande pra mentes pequenas". Sério?

Um bom diálogo não é um diálogo rebuscado, composto por frases feitas, mas um diálogo que, mesmo que seja bem escrito, pareça natural. Uma frase de efeito funciona pois é uma fala que se destaca em meio a um diálogo fluído e aparentemente simples, porém sem parecer deslocada.
Em absolutamente todos os momentos em que aparece, o vilão Lex Luthor (numa versão caricata de todos os personagens anteriores vividos pelo Jesse Eisenberg) solta uma sucessão tão interminável de frases de efeito, que nenhuma delas é realmente de efeito, pois não se destacam, além de tornar o diálogo maçante e praticamente incompreensível.
E isso é um dos menores problemas de roteiro que o filme encontra.

Há dois filmes o Superman está na segunda fase da sua Jornada de Herói, passando por uma crise de adolescente - o que não seria problema se ele já não tivesse passado dos trinta anos. Ele teve seu desfecho dramático em Batman v Superman sem sequer ter entendido quem ele realmente é e qual é a missão que ele quer assumir. É como se o personagem fosse do nada pra lugar nenhum, pois apesar de todos os questionamentos levantados a respeito dele no filme, nenhum deles é respondido e não há nenhuma mudança significativa em sua atitude ou na visão que ele tem de si mesmo.

Aí entra outro problema do filme: O Batman.
Uma das maiores polêmicas relacionadas ao filme diz respeito à cena em que ele desiste de matar o Superman por conta do nome em comum das mães dele e do Clark.
Eu entendi a ideia da cena, inclusive achei a ideia boa, mas a execução é ruim.

Quando se escreve um roteiro, uma cena pode ser composta de vários takes, pois uma cena é um evento da história, e um evento deve sim começar com o relacionamento dos personagens de um jeito e terminar de outro. Assim como a cena da luta começa com eles lutando entre si e termina com eles lutando lado a lado. O problema é que pra se construir as cenas, existe o menor fragmento delas que se chama "beat". Os beats são as ações pontuais dos personagens que fazem, aos poucos, com que esse cenário mude.
A mudança de atitude do Batman não possui beats, nem no início do filme, nem no decorrer, muito menos durante a cena em si. Os incansáveis flashbacks com seus pais morrendo não são o suficiente para fazer com que um personagem que se mostra determinado e teimoso durante todo o filme de repente mude sua opinião sobre o Superman simplesmente por que ele tem uma mãe.  É uma mudança de um beat só, não fica natural, não convence. Além do mais, as falas da cena em si são pobres, são diálogos com frases de efeito ruins, sem naturalidade. Soa artificial. "Hoje Martha não morre" é a frase mais óbvia e expositiva que poderia ser dita pra explicar uma ligação que já estava clara.
O problema não é, como muitos dizem, o "save Martha" ter mudado a cabeça do Batman, o problema é essa mudança ter ocorrido de forma abrupta, numa cena que parece ter sido escrita em menos de cinco minutos e não passou por nenhum processo de acuramento.

Aliás, a motivação dele querer matar o Superman também é ruim. Ele ficar com raiva do Superman é natural, discordar dele é natural, mas querer eliminá-lo simplesmente por parecer de longe uma ameaça que destruiu um dos prédios de sua companhia sem sequer se oferecer para conversar é uma atitude que simplesmente não combina, não convence e não funciona. É um atalho ruim de roteiro pra simplificar as coisas, não importa o quanto digam que este é um Batman "velho e cansado". Por mais "punk" que seja, o Bruce Wayne de Batman v Superman não é do tipo que simplesmente pega um dos "caras bons" pra matar sem antes dar uma boa investigada.
Inclusive, para o melhor detetive do mundo, o Batman do filme é bem tapado.
Por mais cego de ódio que ele estivesse (o que, insisto, não faz sentido apenas pelo que o filme mostra), ele não seria idiota a esse ponto. Ele parece tão cego, que descobre tudo de todo mundo, chegando a descobrir parte dos planos do Lex e desvendar a criptografia de um programa militar, mas não tira nem um tempo pra refletir sobre a possibilidade do Superman possuir um alter ego e tentar investigar qual seria ele e qual seria o nome da sua mãe.

Motivações nesse filme são quase inexistentes, e parece que os roteiristas se contentaram com qualquer pseudo-resposta perdida num mar de outras informações.
E isso se aplica à Ultimate Edition, que apenas tornou o filme mais maçante.
Como se não bastasse, os melhores atores do elenco - Laurence Fishburne, Holly Hunter e Jeremy Irons - são reduzidos a papeis que não fazem jus ao seu talento. Ben Affleck como ator é um excelente diretor, Henry Cavill é a versão masculina da Kristen Stewart em Crepúsculo com sua permanente cara de enjoo.

Ainda estou tentando descobrir - há pelo menos uns dez anos - a razão pela qual o Zack Snyder acha que paleta escura e computação gráfica fake é possuir uma assinatura visual. Snyder simplesmente não consegue criar um bom clima e sempre está usando a trilha sonora como muleta para estabelecer o sentimento da cena - aqui esse esforço é comandado com competência por Hans Zimmer e o ascendente Junkie XL (Tom Holkenborg).
A estética não acompanha a narrativa e o roteiro não ajuda em nada.

A edição parece saída de um piloto de série de TV do início dos anos 2000. O filme começa literalmente como uma série, ambientando de forma óbvia todos os personagens em lugares diferentes do mundo, para depois se achar inteligente fazendo as histórias se chocarem num esforço claramente desastroso.
A ideia de colocar uma investigação jornalística é interessante, mas claramente Goyer e os outros roteiristas esqueceram de assistir bons filmes de investigação jornalística. A ideia de deixar o filme com um clima de "suspense investigativo" também é boa, mas o suspense não está lá. O filme é apenas uma explosão de referências, easter eggs, emulação de splashpages de quadrinhos, pancadaria e CGI mega exagerado que pode fazer a alegria dos fãs de quadrinhos, mas isso não é o suficiente pra fazer uma boa história, especialmente uma que seja satisfatória para o exigente público cinéfilo, que busca um bom filme antes de buscar um bom fan service (daí a nota baixa dada pela crítica especializada ao filme).

A regra do bom roteiro é contar uma história que valha a pena ser contada, uma história em que você conhece tão profundamente um protagonista que se sente amigo dele, que sua história provoque mudança, que a Jornada do Herói funcione pois vem completa, ele passa pelos desafios e sua mudança é tanto externa quanto interna. Temos um Superman que continua com a mesma crise de identidade dois anos depois, um Batman que não conhecemos direito, um Lex Luthor que não dá absolutamente nenhuma dica do que o tornou o Coringa que ele é, uma Mulher Maravilha que não passa de fan service. Ou seja, um grupo de personagens principais que simplesmente não mudam, não passam por verdadeiras transformações e epifanias. Histórias que não valem a pena ser contadas.

O que é bem triste na verdade, principalmente quando num filme onde estão presentes três dos maiores super heróis do mundo - Superman, Mulher Maravilha e Batman e dois dos seus maiores vilões, a melhor, mais bem escrita, mais interessante e mais coerente personagem é uma Senadora do interior do Kentucky.




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