domingo, 22 de maio de 2016

Sobre X-Men: Coisas dos filmes que saíram direto das HQs


A franquia cinematográfica dos X-Men é uma das que mais divide opiniões entre os fãs de quadrinhos, principalmente depois que a Marvel Studios lançou seu universo  nas telonas, criando um grande escopo que parece ser o novo padrão comparativo para os outros filmes, embora os X-Men tenham inaugurado a nova era dos filmes de heróis e tenha feito o primeiro filme de equipe que funcionou, influenciando a Disney a investir na franquia dos Vingadores e lançar sua própria tendência ao quebrar os novos paradigmas do filme de herói sombrio, denso e realista lançado por Singer e continuado por Christopher Nolan, fazendo filmes mais "família" e trazendo os uniformes coloridos de volta para as telas.
Isso criou um novo paradigma que fez com que alguns fãs de quadrinhos começassem a torcer o nariz para as leituras autorais que diretores como Sam Raimi, Bryan Singer e Christopher Nolan trouxeram para suas adaptações. Não vou entrar no mérito da adaptação, pois já escrevi sobre isso aqui (LEIA).

Esse texto é uma resposta a uma das frases que mais leio em fóruns de discussão: "A Fox ignora completamente os quadrinhos pra fazer seus filmes". Para mostrar que isso está errado, fiz uma lista de elementos da franquia que foram retirados diretamente dos quadrinhos, sejam cenas inteiras ou apenas referências. A lista não inclui aspectos visuais óbvios, como o figurino civil e o cabelo cafona do Wolverine sempre com seu charuto, os cabelos brancos da Tempestade, a Jean ruiva, as mechas brancas da Vampira ou o incrível visual do Fera em X-Men 3. Vou tentar me ater ao máximo a acontecimentos dos enredos e também vou me ater aos filmes da equipe, sem contar os filmes solo do Wolverine e do Deadpool. Obviamente a lista contém spoilers, mas está dividida por filmes, então não precisa ler tudo se não tiver visto todos os filmes.

X-Men - O Filme (2000)



Talvez o filme com menos referências aos quadrinhos seja o primeiro. Ele não pegou o enredo de nenhuma história em específico. Mas isso não significa que não há referência nenhuma.
A origem de Magneto é retirada dos quadrinhos, assim como sua relação de ambiguidade com Xavier, mantendo a inimizade ideológica temperada com respeito mútuo. E o fato de Magneto ser o primeiro vilão dos filmes remete diretamente ao primeiro número dos X-Men, onde ele é o vilão principal e tenta fazer uma demonstração de poder ao mundo.
Em termos de referência, há o Groxo como componente da Irmandade de Magneto (ele realmente era um dos componentes originais) e o filme também referencia a inimizade de Wolverine com Dentes-de-Sabre.
O lugar de origem da Vampira e do Wolverine é o mesmo dos quadrinhos, ela do Mississipi, ele do Canadá. O modo com que a Vampira descobre seus poderes é praticamente idêntico aos HQs e também faz referência ao desenho, com o nome do garoto a quem ela beija pela primeira vez deixando-o em coma, Cody.
O filme também começa a abordar a origem do Wolverine, embora dê apenas dicas de quem ele é.
Mas falando de cenas retiradas diretamente dos quadrinhos, talvez a mais óbvia seja a cena em que Wolverine tenta usar os poderes da Vampira para salvá-la, sacrificando-se de certa forma.
Essa cena é uma referência direta a Uncanny X-Men #173, quando Vampira acaba de entrar para os X-Men e ainda não conquistou a confiança do Wolverine, que a conheceu como vilã. Porém em sua primeira missão juntos, que acontece nessa edição, ela o ajuda a salvar sua noiva e ao ser quase morta, Wolverine oferece a ela seu fator de cura para salvá-la, mesmo que isso signifique sua própria morte.
É uma belíssima cena tanto nos quadrinhos, quanto no filme.

X-Men 2 (2003)




O segundo filme da franquia já pega histórias específicas dos quadrinhos para adaptar.
A sua premissa principal é claramente baseada em uma das mais aclamadas graphic novels dos mutantes, "Deus ama, o homem mata", de Chris Claremont e Brent Anderson, publicada em 1982 nos Estados Unidos.
A começar pelo vilão, William Stryker. A diferença é que no filme ele é um militar e não um reverendo ex-militar (como nas HQs). E não acho que o filme perca pontos por isso. Quando "Deus Ama, o Homem Mata" foi lançado, os evangelistas de televisão tinham um poder de influência enorme, por isso a figura de um televangelista era significativa na época. Em 2003, quando o filme foi lançado, um militar em busca da segurança faz muito sentido no contexto pós 11 de setembro, e provavelmente era alguém com muito mais influência do que o reverendo (aliás, faz muito sentido um ataque à Casa Branca naquele contexto). Mesmo a motivação dele sendo adaptada, ela ainda tem a ver com a dos quadrinhos, que ambas tem relação com sua esposa e filho.
O Professor Xavier sequestrado e seus poderes de telepatia usados para tentar matar toda a raça mutante é outro ponto crucial da história nas duas mídias. Aliás, tanto no filme quanto nos quadrinhos, Stryker utiliza jogos mentais e ilusões para manter Xavier refém.
Outro ponto essencial em ambas as histórias é Magneto, ainda como inimigo dos X-Men, mas lutando ao lado deles por uma causa maior. A presença de Noturno e sua dualidade (criatura demoníaca, mas profundamente religiosa) é imprescindível nas duas histórias. Aliás, os cameos de Colossus e Lince Negra provavelmente também são uma homenagem à história original.
E o mais importante de tudo: a temática do preconceito vista sob um ângulo sócio-político inteligente. A diferença é que esse ângulo nos quadrinhos é mais religioso e no filme é mais político (embora os dois elementos estejam presentes em ambos).



Outra saga famosa utilizada no filme é a aclamada "Arma X" de Barry Windsor-Smith, que conta como Wolverine foi fruto de experimentos do programa que dá nome ao arco e como conseguiu seu esqueleto de adamantium. Para integrar as duas sagas, eles colocaram William Stryker no lugar do excêntrico Professor das histórias. O arco do Wolverine no filme ainda possui algumas pequenas homenagens a outras histórias suas nos quadrinhos, como a presença de uma versão adaptada de Lady Letal, inimiga clássica de Logan nos quadrinhos.

A terceira saga referenciada no filme, de forma mais sutil, é a origem da Fênix. No filme, Jean Grey se sente insegura em relação aos seus poderes e começa a se sentir diferentes. Ao perceber todo o seu potencial e como ele poderia desencadear grandes catástrofes, ela escolhe fazer o sacrifício final, culminando numa das cenas mais emocionantes da franquia. O jato não consegue decolar e toda a água da represa do lago Alkali está vindo na direção deles. Ela desce do jato e começa a consertá-lo enquanto segura a onda. Naquele momento vemos a primeira manifestação da força Fênix. Ela então faz com que o jato decole e solta a água em cima dela.
Nos quadrinhos, a Fênix surge depois de uma batalha estressante contra um vilão anti-mutante no espaço. Quando a nave está voltando para a Terra, eles são atingidos por uma espécie de tempestade solar que vai matá-los. Ela toma o controle da nave e coloca todos os outros do grupo a salvo dentro de um compartimento de segurança. Ela passa pela tempestade solar desprotegida e a nave cai no mar. Todos pensam que ela morreu, mas ela ressurge de dentro das águas como a Fênix.
Mais tarde, num retcon, depois da saga da Fênix Negra, descobre-se que a Jean que se sacrificou era uma "cópia" criada pela Fênix e a Jean verdadeira havia ficado no fundo do lago protegida por um casulo. Essa ideia foi usada mais tarde no terceiro filme da franquia.
Uma referência mais leve à saga da Fênix é o filho do William Stryker, Jason, que tem os mesmíssimos poderes do Jason Wyngarde, o Mestre Mental, que é quem usa o ilusionismo pra transformar Jean numa "bad girl" que culmina na sua transformação em Fênix Negra.

X-Men - O Confronto Final (2006)



O Confronto Final é um dos piores filmes da franquia dos mutantes.
Tanto como filme, quanto como adaptação. Tirando a forma como Jean ressurge do lago e a roupa vermelha, qualquer referência à saga da Fênix Negra dos quadrinhos foi eliminada em X-Men 3. Até mesmo o efeito Fênix do fogo em volta dela  que Bryan Singer havia introduzido ao final do filme anterior.
Mas o filme possui outras referências a outros quadrinhos.

A cena que sucede os créditos iniciais é um treinamento na sala de perigo que faz referência direta à saga dos quadrinhos de Dias de Um Futuro Esquecido, um lugar destruído e mutantes lutando contra um Sentinela. A cena também conta com um "combo" Wolverine/Colossus que é clássico nos quadrinhos (esse combo é repetido mais tarde no filme).

O plot principal é baseado no arco Superdotados dos Surpreendentes X-Men roteirizados por Joss Whedon pouquíssimo tempo antes do início das gravações do filme.
Assim como nos quadrinhos, uma cientista indiana (Dra. Kavita Rao) e sua equipe descobrem como reverter o gene mutante, oferecendo uma cura. Obviamente, isso provoca reações diversas.
O destaque dado no filme para a Kitty e o Colossus (que tinham tido apenas participações especiais nos filmes anteriores), assim como a inclusão do Fera na equipe, remete diretamente à formação dos quadrinhos. Por conta de más escolhas de enredo e também por conta do que os filmes anteriores permitiam, porém, a formação não é completamente fiel, substituindo Scott e Emma Frost pelo Homem de Gelo e a Tempestade. O Wolverine faz parte da equipe tanto no filme quanto nos quadrinhos.

O desejo da Vampira em tomar a Cura e o fato das empresas Worthington (pertencentes ao pai do Anjo) financiarem a pesquisa, podem ter sido elementos inspirados na série animada dos anos 90, quando o Apocalypse usa a cura de fachada para criar seus Cavaleiros, financiado por Warren Worthington (Anjo) e a Vampira decide ir tomar a cura.



Há algumas outras referências aos quadrinhos também. A famosa cena em que Magneto levanta a ponte de São Francisco saiu diretamente da saga Planeta X dos Novos X-Men do Grant Morrinson. O Wolverine matando a Jean Grey é uma emulação do fim da Fênix em A Canção Final da Fênix.
O filme tenta em vão fazer uma referência à rivalidade da Tempestade com a morlock Callisto que existe nos quadrinhos, mas faz isso de forma tão rasa e irrelevante que nem vou contar muito como referência. No mais, as semelhanças com os quadrinhos terminam aqui.

X-Men: Primeira Classe




Primeira Classe leva esse nome mas, além do Fera, nenhum dos mutantes que compõem a equipe do filme eram realmente da primeira classe do Instituto nos quadrinhos.
O filme possui pouca coisa dos quadrinhos além do clássico conflito Magneto x Professor, o relacionamento do Professor com a Moira e o fato do Clube do Inferno contar com Sebastian Shaw e Emma Frost.
Os uniformes pela primeira vez realmente lembram os uniformes amarelos e azuis/pretos originais dos X-Men.
E pode ser que o lance do Magneto com os mísseis ao final realmente sejam uma referência a X-Men #1, onde, no clímax os X-Men precisam impedir Magneto de fazer um ataque terrorista de retaliação mutante usando os mísseis de uma base militar.

X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido




Esse filme leva o nome de uma das sagas mais importantes dos quadrinhos dos X-Men.
Embora eles tenham usado o título apenas como ideia para fazer um soft reboot da franquia, o filme ainda conserva algumas semelhanças e homenagens à história original.
Em Dias de Um Futuro Esquecido dos quadrinhos, a mente da Kitty é enviada ao seu corpo mais jovem no passado para avisar aos X-Men que eles precisam impedir a Mística de assassinar um político que estava à frente do movimento anti-mutante (essa é a primeira aparição da Mística nos quadrinhos dos X-Men). No filme, a Kitty sequer tinha nascido em 1973, então, para homenagear a história original, os roteiristas conferiram a ela o poder de enviar a mente para o passado, e ela envia Wolverine para impedir que a Mística mate Bolivar Trask, o criador dos Sentinelas. Em ambas as histórias eles precisam impedir o assassinato que a Mística cometeria para evitar um futuro apocalíptico onde os Sentinelas governam a tudo.
A formação dos mutantes do futuro conta com alguns membros cruciais nas duas versões da história: Magneto do lado dos X-Men, Tempestade, Kitty, Colossus e Wolverine (que está inclusive com suas mechas brancas nas laterais do cabelo, que ele possui nos quadrinhos - e pra quem não notou, o traje dele embaixo da armadura é azul e amarelo, remetendo ao seu uniforme clássico dos quadrinhos).
Assim como no filme, o clímax dos quadrinhos conta com a morte de todos os membros da equipe no final - embora no original não saibamos se o fato de terem alterado o passado mudou ou não o futuro. A morte da Tempestade no filme, inclusive, é bem parecida com a dos quadrinhos, onde ela é empalada pelas costas por um Sentinela.
A presença do Bishop é uma homenagem ao fato dele ter sido um dos mais significativos viajantes do tempo nos quadrinhos.


Mas a saga homônima não é a única inspiração para o filme.

O clímax, quando o Magneto reprograma os sentinelas para obedecê-lo e filma seu ataque à Casa Branca é uma referência direta e praticamente saltada da página à saga do Ultimate X-Men, O Povo do Amanhã, do Mark Millar.


No mais, ainda temos X-Men Apocalypse para analisar, mas suas semelhanças com as HQs serão discutidas no texto de análise definitiva do filme.
O fato é que várias dessas referências que citei provam que não basta ter lido uma sinopse ou um resumo de quadrinhos e feito o roteiro. Os roteiristas dos X-Men podem cometer seus deslizes, mas eles definitivamente não ignoram as HQs.
E isso por que nem citei todas, apenas as mais óbvias e relevantes.
Espero sinceramente que um dia as pessoas compreendam o conceito de adaptação e entendam que nem só de Marvel Studios deve sobreviver o cinema de heróis.


2 comentários:

  1. Muito legal seu artigo e sem dúvidas há várias citações a hqs, mas o problema nisso tudo é que esse mix de informação e principalmente desconectividade. Algo nos vingadores foi sendo criado dentro dos filmes do Capitão, Thor e Homem de Ferro é que atrapalha a primeira trilogia dos X-men!! Em relação ao primeiro filme, eu achei a proposta bem interessante!! A apresentação dos X-men para o público leigo, mas no filme descartam o Dentes de Sabre de cara, com referencias ao Dentes de Sabre antigo, que era acéfalo!! Outro ponto foi o não aproveitamento do Fera e do Noturno nos filmes em que eles não aparecem!! Vc mesmo fala dessa mania de colar uma história na outra:Para integrar as duas sagas, eles colocaram William Stryker no lugar do excêntrico Professor das histórias. O arco do Wolverine no filme ainda possui algumas pequenas homenagens a outras histórias suas nos quadrinhos, como a presença de uma versão adaptada de Lady Letal, inimiga clássica de Logan nos quadrinhos.".

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    1. Não há problema nenhum com o "mix de informações" e sagas diferentes se o enredo do filme funcionar. O único que não funcionou foi X3. Mas X1, X2, Primeira Classe e Dias de Um Futuro Esquecido funcionaram muito bem.
      Quem é fã de quadrinhos acaba ficando frustrado que esse ou aquele personagem tem uma história mais interessante nos quadrinhos do que nos livros, mas essa é uma questão de escolha do diretor e infelizmente temos que conviver com isso. O fato dele não ter explorado a mesma história dos quadrinhos não diminui a qualidade dos filmes.
      Nem mesmo o fato dele escolher personagens diferentes para focar tira a essência deles.
      Temos que levar em consideração também que a franquia X-Men foi lançada em outros tempos. A Marvel foi quem fez essa ideia de franquia extensa e universo compartilhado primeiro.
      A Fox inaugurou os filmes de super herói de equipe de qualidade, mas foi um movimento arriscado, visto que os filmes de super heróis haviam sido enterrados por Batman & Robin ainda nos anos 90.
      Os X-Men foram lançados numa época onde não se pensava em franquias tão longas, mas em trilogias. Matrix, Senhor dos Anéis, Homem Aranha, X-Men...
      Hoje são outros tempos e a Fox fez DOFP justamente por isso.

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