quinta-feira, 24 de março de 2016

Sobre Fãs e Críticos: Caros nerds, vocês não são o centro do mundo



[ATUALIZAÇÃO] Agora eu já assisti o filme, para ler minha resenha, clique aqui. [/ATUALIZAÇÃO]

Esta semana é um marco na história do cinema de super heróis.
Pela primeira vez nos telões, os que talvez sejam os supers mais famosos de todos os tempos estão juntos num filme. Mais do que isso: é o início da produção de uma das franquias mais aguardadas pelos nerds.
Batman v Superman: Dawn of Justice estreou hoje, depois de três longos anos de produção.
Anunciado ainda em 2013, o filme ocupou o imaginário e a expectativa dos fãs e do grande público.
O filme carrega sobre si a responsabilidade de suceder alguns grandes (outros nem tanto) filmes dos dois heróis e ainda iniciar o universo compartilhado dos heróis da DC Comics no cinema.
O hype é certo. A expectativa alta.

Mas aconteceu um fenômeno interessante: Quando as críticas foram liberadas nessa segunda-feira e começaram a se mostrar mornas, o fandom da DC Comics entrou em polvorosa.

O site americano Rotten Tomatoes, que contabiliza a recepção de público e crítica dos filmes, se mostrou um termômetro de qualidade pouco satisfatório diante do hype de Batman v Superman.
No momento em que escrevo este texto, o filme se encontra com 31% de aprovação da crítica (uma porcentagem baixíssima para um filme tão esperado), a nota média está 5.1/10, com 186 críticas contabilizadas, sendo apenas 58 delas mais positivas do que negativas, enquanto as outras 128 são mais negativas.
Essa porcentagem levantou a ira dos fãs contra os críticos - e essa relação já era complicada.
Os sites que escrevem resenhas para o público nerd foram mais receptivos ao filme - como o Omelete, o Nerd Rabugento, os colaboradores do interacional ComicBookMovie.com, dentre outros, salvo algumas exceções.

Li coisas nos comentários como: "Esses críticos estão sendo pagos pela Marvel", "É um bando de velhos que apenas gosta de filmes coloridos e divertidos", "O filme não foi feito para eles, foi feito para os fãs", "Eles não entendem nada de quadrinhos!", dentre outras coisas.
Depois de muito discutir com alguns, resolvi escrever esse texto, sob desculpas a quem acompanha o blog, afinal, vou ter que repetir algumas coisas que eu já disse aqui no texto "Sobre Adaptações: 10 Coisas que Fãs de HQs PRECISAM Aprender". Aliás, talvez você devesse ler esse texto, caso não tenha lido, é só clicar no título dele.

O fato é que a discussão não é nova, mas se tornou insuportável nesses últimos dias.
É certo que o filme, apesar da recepção morna da crítica, vai fazer uma bilheteria grande. Afinal, Transformers: Era da Extinção é considerado um dos piores filmes dos últimos anos e ainda assim bateu record de bilheteria. Quem dirá se Batman v Superman não vai fazer uma bilheteria no mínimo lucrativa.
Mas no fim das contas, falando da qualidade do filme, quem está certo são os fãs ou os críticos?

Bem, eu vou ficar devendo essa resposta pra vocês por dois motivos:
1 - Eu não tenho a pretensão de estar certo ou errado sobre nada.
2 - Eu ainda não assisti o filme. E antes que você me jogue pedra, esse texto não é sobre o filme Batman v Superman, é sobre o embate Fãs vs Crítica. Então não há motivos para dizer: "Ah, você não pode falar por que não viu o filme!"

Nesse texto, quando me refiro a fã, estou me referindo à uma definição comum nos estudos culturais e de mídia de hoje. Afinal, a cultura do fã é algo de profundo interesse da área de comunicação. O fã é alguém que não apenas gosta de algo, mas consome, gasta tempo e dinheiro com isso e entende do que gosta. Essa profundidade de gosto do fã é composta por dois elementos básicos: memória e repertório.
A memória consiste na forma como o fã se relaciona pessoal e emocionalmente com o seu objeto de admiração. É construída a partir de lembranças positivas, momentos chave e sentimentos agradáveis em relação àquilo.
O repertório consiste no conhecimento adquirido pelo fã a respeito do objeto de admiração. Ele leu a respeito, buscou saber sobre, sabe os autores, atores, diretores, leu quadrinhos, assistiu animações e filmes. Ele buscou racionalmente construir um conhecimento de algo, e geralmente seu repertório é o que o ajuda a argumentar em uma discussão. No fim das contas, o fã não é um especialista acadêmico no assunto, mas é um leigo com conhecimento o suficiente (às vezes) para ter argumentos numa discussão.
Essas duas coisas são essenciais na composição de "quem é o fã". Embora, muitas vezes o fã "desligue" todo o seu repertório e use apenas sua memória para defender ou criticar algo relacionado ao seu objeto de admiração. Quando isso acontece, ele não discute racionalmente, mas emocionalmente, apelando inteiramente para seu sentimento em relação àquilo. Esse é o famoso fanboy. Não importa se algo é bom ou ruim, importa é que ele gosta (ou odeia) aquele algo.

Outra coisa que precisa ser bem definida: quem é a crítica e qual é o papel dela.
Os críticos de cinema geralmente são formados em faculdades de Cinema ou possuem algum tipo de especialização ou pós na área. Ou são comunicadores, ou são formados em artes visuais e possuem essa especialização no assunto. Há os profissionais de outras áreas que são leigos "fãs" de cinema, os famosos cinéfilos, que escrevem resenhas e acabam se destacando - tirando a parte do destaque, eu me encaixo entre esses últimos, embora às vezes pense seriamente antes de escrever algo, já que não sou especialista.

A questão é que você tem os fãs que conhecem muito sobre o que gostam - no caso, os personagens e suas histórias nas diversas mídias - revoltados com a opinião dos críticos, que por sua vez, conhecem muito sobre o que estudaram e no que se especializaram - no caso, cinema.

Veja, eu tenho um blog (na verdade vários) e escrevo minha opinião nele. Aliás, eu tenho um blog sobre um assunto no qual não sou especialista. Mas minha opinião é extremamente baseada nas opiniões de especialistas que gosto de ler e que me fizeram entender algumas poucas coisas. Gosto muito de poder me expressar e não concordo com a "elitização" da opinião e do conhecimento. Mas eu concordo muito com uma coisa: todos podem ter sua opinião, mas sua opinião pode ser boa ou ruim. E geralmente a opinião boa é a do especialista. E eu disse GERALMENTE, nem sempre. Até por que os críticos também tem seu lado fanboy, mas eles analisam de um jeito diferente!

O professor da Universidade da Marinha Americana Tom Nichols escreveu um intenso texto chamado "A Morte do Especialista" e destaco abaixo, em tradução livre, algumas frases dele:

“Eu sou um especialista numa área particular do conhecimento humano […] e espero que a minha opinião informada sobre esse assunto seja vista como superior às opiniões desinformadas da maioria das pessoas. [...] Isto não devia ser controverso. No entanto, há quem pense que isto é um apelo à autoridade ou elitismo. [...] Democracia é um sistema de governo, não um estado de igualdade social. Quer dizer que temos direitos iguais. No entanto, não quer dizer que temos talentos iguais, habilitações iguais, ou conhecimento igual. E certamente não quer dizer que a opinião de uma pessoa está ao mesmo nível que a opinião de todas as outras. [...] Eu temo que estamos a presenciar a morte dos especialistas, através de uma sociedade que dá mais valor ao Google e à wikipedia, e que derruba as paredes que separam os professores dos alunos, os profissionais dos leigos, os que têm conhecimento dos que mandam bitaites – por outras palavras, a sociedade está a derrubar os muros que separam aqueles que conseguiram alcançar o conhecimento numa determinada área e aqueles que não têm qualquer mérito, habilitações ou formação.”

Com base nessas definições e com base nos comentários que tenho lido essa semana nas redes sociais, eu gostaria de pontuar algumas coisas:

Os críticos devem ter a opinião respeitada, pois eles são especialistas. Embora não sejam infalíveis, como o próprio Tom Nichols aponta em seu texto: Os especialistas não estão sempre certos e por vezes cometem erros. No entanto, comparando com os não-especialistas, os especialistas acertam muitas mais vezes (comparemos médicos com os pseudo-cientistas que dão conselhos médicos).
É claro que há uma diferença entre um crítico de cinema e um médico, por exemplo. O médico lida com coisas mais complexas e mais exatas, que não dependem tanto de gosto ou conceito cultural. Críticos lidam com a análise da arte que é muito mais abstrata. Ainda assim, a arte possui suas regras, e mesmo quando são quebradas, um artista geralmente sabe quais regras está quebrando e geralmente por sabê-las e por quebrá-las com propriedade é que ele se destaca. E o crítico geralmente lida melhor com essa linguagem e essas regras do que o grande público.

Obviamente, isso não significa que você não possa ter uma opinião diferente, ou que você não possa gostar de um filme. Há muita confusão entre os termos gostar e opinar. Eu gosto de muitas coisas que sei que são ruins e não gosto de muitas outras que sei que são boas.
Aceitar que a crítica pode estar certa não arranca pedaços e não tira o direito dos fãs de gostar de algo. Vi alguns apontarem que a crítica pontua como negativos justamente os pontos que os fãs provavelmente mais irão gostar e se sentir empolgados. Mas uma coisa realmente anula a outra?
Afinal, referências a quadrinhos, presença de personagens icônicos, cenas de luta grandiloquentes e até mesmo fidelidade aos quadrinhos são aspectos mínimos na avaliação da qualidade de um filme. Um filme feito para agradar fãs pode cumprir esse propósito, embora isso não o torne um bom filme.

Aliás, sobre isso, é bom destacar que o bom filme, de acordo com os especialistas, agrada a todos os públicos: ao fã do material original e ao neófito, o que conheceu aquele personagem através dos filmes. O filme do Deadpool talvez seja um dos melhores exemplos disso este ano: o filme é repleto de fidelidade, referências e fan services, mas agradou também ao grande público leigo e à crítica.

Filmes não são feitos apenas para os fãs. Os filmes são feitos para fazer dinheiro e quanto mais gente gostar do filme, melhor. Boca a boca ainda é importante para a publicidade, e sim, as críticas muitas vezes (não todas) influenciam na bilheteria.

E antes de concluir o assunto gostaria de destacar algo sobre como funciona o site Rotten Tomatoes, pois muito se argumenta em cima das porcentagens de aprovação dele sem entender como ele funciona.
O site tem um critério rigoroso para os críticos que lhes enviam seus textos. Existe um tempo mínimo em que a publicação precisa estar no ar, existem requisitos profissionais, dentre outras coisas, para que o crítico envie seus textos para a contabilização. O único brasileiro que tem suas críticas contabilizadas no Rotten é o Pablo Villaça, crítico do portal Cinema em Cena.
O site vai fazendo as contas a partir das notas das reviews, que são bem variadas. Algumas revistas e sites avaliam com o sistema 10/10, outros com o sistema 5/5, outros até com o sistema de letras (A, B, C). Nas críticas 10/10, a nota mínima para a crítica ser considerada positiva é 6, para uma crítica /5 a nota mínima é 3 e numa crítica de sistema de letras ele tem que ser um B. Na conta final, o Rotten usa o sistema 10/10 e o filme ganha o selo de Fresh a partir da nota 7/10.
A partir dessas notas o site contabiliza a pontuação média e a porcentagem, que parte do número de críticas negativas  e positivas.
Ou seja, a porcentagem e a nota no site são uma visão geral. Inclusive é interessante ir nos textos das críticas contabilizadas e perceber que muitas críticas positivas destacam diversos aspectos negativos do filme, assim como muitas críticas negativas destacam vários aspectos positivos.
Outra coisa: as pessoas gostam de falar sobre a pontuação das séries e tudo o mais... Bem, os críticos de TV, cinema e streaming muitas vezes são diferentes mesmo dentro da mesma publicação. Até por que são áreas diferentes, produzidas, escritas, concebidas de formas diferentes. Aliás, a época em que o filme foi lançado também influencia no modo como a crítica o recebe. Por exemplo, um filme razoável ser lançado numa época cheia de filmes ruins tende a ter uma nota maior que recebe e o contrário também é verdade, ou o fato de que alguns filmes funcionaram numa época, mas envelheceram. Por isso algumas avaliações parecem tão discrepantes - como os fãs estão gostando de destacar nesses últimos dias.

Então, fiz esse texto pra abrir a mente de algumas pessoas que parecem não entender ainda que o cinema não funciona da mesma forma que os quadrinhos, que a indústria cinematográfica não gira apenas em torno dos fãs dos materiais originais e que os especialistas entendem mais do que nós leigos sobre o que eles estão dizendo.

E acho que não precisamos ficar ofendidos com isso, pois ainda assim somos livres para gostar ou não de um filme que a crítica falou mal - prova disso é que o público tem gostado do filme. Mas de gostar para dizer que a opinião dos especialistas é "lixo" é um salto enorme e um sinal de ignorância que não gosto de ver associada a um grupo de pessoas tão especial que é o fandom. Há um motivo para existir pesquisa acadêmica, faculdade, pós graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado. Há um motivo para as pessoas receberem para escrever. Claro, o gosto pela arte é subjetivo, e a própria interpretação da arte não é exata e absoluta. Mas quando falamos de cinema não estamos lidando com o Dadaísmo. É algo que possui técnica e técnica apurada, e possui escolas diferentes. E os críticos gostam mais de uma escola ou de outra, gostam mais de um estilo de filme do que de outros. Eles aprenderam a valorizar arquitetura de cena, teoria da cor, movimentação de câmera, apuro técnico, técnicas de escrita de roteiro, teoria do monomito, questões sobre elipses, exposição, distribuição de personagens. É um olhar completamente diferente do olhar do fã que quer  ver uniformes, pancadaria e personagens fieis aos quadrinhos. O jeito que o fã de quadrinhos assiste filme é um, o jeito que o público em geral assiste filme é outro, o jeito que um cinéfilo assiste é outro, o jeito que um profissional de cinema crítico assiste é outro, o jeito que o profissional de cinema realizador assiste é outro ainda. Mas existem pontos de interseção... Eu assisto tanto com um olhar de fã de quadrinho, quanto com olhar de cinéfilo, embora meu olhar de cinéfilo seja MUITO mais forte que o olhar de fã de quadrinhos (que sou menos fã e acompanho menos do que cinema). Várias críticas já me fizeram repensar minha opinião sobre um filme - e estou falando de ler a crítica depois de assistir - pois as críticas apontam defeitos ou qualidades que muitas vezes a gente, que é público comum, não repara.

Muitas vezes há coisas no filme que incomodam o público geral, mas o público geral não sabe dizer o que é e acabam dizendo que "gostaram" por não saberem explicar o que incomoda. Um dos papéis do crítico é dar nome a essas coisas pois ele estudou pra isso.
Não é vergonha nenhuma mudar de opinião sobre algo quando se lê uma opinião especializada. Assim como não é vergonha nenhuma amar algo que a opinião especializada diz que é ruim. É um direito seu.

Por isso, vá, assista ao filme, curta o momento e ame o filme se quiser. Mas não saia por aí esquecendo que o mundo não é apenas composto de nerds e easter eggs.
Às vezes tenho a sensação de que fãs de quadrinhos precisam urgentemente dar uma pausa em filmes de heróis e assistir a alguns filmes clássicos, ler as análises deles e entender o por quê são clássicos, para depois voltar e curtir de forma mais sensata os filmes que os tem como público.
Faça isso. É saudável e, ao contrário do que você pode pensar, libertador.

Nenhum comentário:

Postar um comentário