sábado, 6 de junho de 2015

Sobre Adaptações: 10 Coisas que Fãs de HQs PRECISAM Aprender



As maiores polêmicas em relação ao mundo nerd hoje se encontram nas adaptações dos quadrinhos para o cinema e a TV.
De um lado uma minoria de fãs só que ver um bom filme, do outro a maioria reclama das roupas dos personagens, de como eles parecem diferentes, de trocas de etnia, dentre outras coisas.
É muito mimimi pra pouca internet.
Pensando nisso, fiz uma lista de coisas que os fãs mais puristas de comics talvez precisem entender a respeito de adaptações cinematográficas. E me concentrei nesse tipo de adaptação. Afinal, adaptar quadrinhos de é bem diferente de adaptar livros e mais diferente ainda de adaptar histórias reais.




1 - O que é adaptação

Segundo o dicionário MICHAELLIS, adaptação tem vários significados, físicos e biológicos. O significado que interessa para nós é: Acomodação.
O verbo adaptar é definido pelo mesmo dicionário como: 1 Pôr em harmonia; 2 Fazer acomodar a visão; 3 Tornar apto; 4 Combinar, encaixar, justapor; 5 Ajustar (uma coisa a outra); 6 Aclimar-se: Adaptar-se ao meio; 7 Acomodar(-se), pôr(-se) em harmonia.
Diante disso, podemos concluir que adaptação é bem diferente de cópia e/ou transcrição.
Adaptar significa acomodar algo que vem de uma mídia para outra mídia, colocar a história em harmonia com a nova mídia na qual foi baseada, tornar a história apta a ser retratada no novo formato, ajustar, aclimar... E diante dessa definição construímos os próximos itens.





2 - O que significa "baseado em"

Se um filme é baseado em quadrinhos, ele tem os quadrinhos como base.
Ou seja, o básico do filme foi retirado dos quadrinhos.
Quando algo é BASEADO em outra coisa, exige-se que apenas o básico dessa outra coisa esteja lá.
Não sei se as pessoas sabem disso, mas básico vem de base.
E é em cima dessa base que todo o resto da estrutura da história, que é algo muito maior que a base, será construído.
Uma coisa é mudar tudo, retirar todas as referências. O "baseado em" não faz isso, mas ele pode simplesmente pegar a essência e traduzi-la para uma visão nova a respeito daquela mitologia já existente. O que nos leva ao próximo item.




3 - Boas adaptações também exigem criação autoral

O diretor de cinema e o roteirista também são autores.
E eu me incomodo com uma indústria que poda cada vez mais a veia artística dos seus autores. Assim como a Marvel Studios faz só pra manter a marca.
Não se trata de egocentrismo e "fazer o que quer", como alguns acusam, trata-se de dignidade profissional e alguns se vendem, outros não.
E acho admirável quando uma produtora permite que seus diretores trabalhem suas próprias ideias em cima do material de origem.
Essa é uma coisa que acontecia na Era de Ouro dos quadrinhos e é exatamente por isso que foi a era de ouro, por que Claremont tinha uma ideia pros X-Men COMPLETAMENTE diferente das ideias do Stan Lee, assim como o Grant Morrison também teve sua própria visão, e depois o Joss Whedon, e o Mark Millar com seu Ultimate. Ou o Kurt Busiek com seu "Marvels" que mostrou um ponto de vista completamente diferente para os super heróis, e é isso que tornava os quadrinhos tão ricos.

Hoje em dia tudo gira em torno de grandes nomes, grandes sagas, crossovers aos montes, tudo em resposta a uma demanda comercial e por isso a qualidade dos quadrinhos baixou. E parece que esse público que se contenta com a formatação comercial dos quadrinhos é o mesmo que reclama de mudanças em adaptações. E isso é uma pena, pois a beleza da arte está justamente em ver as coisas sob perspectivas completamente novas.
Além do mais, há uma cobrança dos diretores de cinema muito maior do que dos roteiristas de quadrinhos por parte dos fãs, o que nos leva ao próximo item...




4 - Os quadrinhos nem sempre são fiéis a si mesmos

Os quadrinhos são o material original certo? Mas em termos práticos o universo só foi original no período em que o primeiro autor (no caso da Marvel, quase sempre o Stan Lee) esteve à frente das histórias. Depois não é mais. Assim como o personagem só é original quando o autor que o criou trabalha com ele, depois não é mais.
Aí vem outros roteiristas e desenhistas e dão sua própria visão da história, desvirtuam coisas, recriam coisas, fazem releituras, matam gente, mudam poderes... Talvez seja um pouco de hipocrisia criticar os cineastas quando nos quadrinhos isso acontece com um critério até menor do que nas adaptações cinematográficas. Aliás, muitas vezes acontecem muito mais mudanças ruins nos quadrinhos do que nos cinemas.
Então dizer que um diretor de cinema é "irresponsável" por desrespeitar o material original pode ser um tiro pela culatra se pensarmos que muitas vezes, os próprios roteiristas de quadrinhos desrespeitam o material original - e o resultado nem sempre é bom.



5 - Nem toda boa adaptação é fiel...

E nem toda adaptação fiel é boa.
Uma história escrita ou ilustrada pode ser praticamente transcrita para a tela de cinema e não funcionar enquanto filme. Ao mesmo tempo que uma história pode ser uma releitura completa do material original e ser um grande filme. 

Provas desse contraponto são filmes como The Spirit - fiel e pouco funcional enquanto cinema - e outros como os X-Men do Bryan Singer e a trilogia O Cavaleiro das Trevas do Christopher Nolan, que mantiveram elementos essenciais do cânon, mas fazem uma releitura do material original, e ainda assim renderam excelentes filmes. 
O motivo disso ocorrer se encontra no próximo item...



6 - Não é só uma mudança de mídia

Sim, é uma mudança de mídia, mas não só isso.
Alguns creem que é só uma mudança de mídia, então por isso dá sim pra ser bem fiel sem perder aspectos como algumas origens, aparência física, etc, etc.
Mas existem algumas diferenças bem significativas da mídia quadrinhos para a mídia cinema.
Para começar, um filme é absurdamente mais caro do que a produção e impressão de uma tiragem de quadrinhos, mesmo que essa seja em escala global. Isso limita o filme a várias demandas como bilheteria, resposta de crítica e público, censura, produtora, distribuidora, direitos autorais, etc, etc.

Depois, por usarem pessoas reais para representar os personagens, envolver pessoas de produção, direção, todas com agendas apertadas, os filmes também não podem continuar sendo produzidos por tantos anos quanto quadrinhos. Atores se cansam de personagens, envelhecem, trocam, são despedidos, a mesma coisa com diretores. 
Isso fora algumas questões sobre o que funciona e o que não funciona nas duas mídias, o que nos leva aos dois próximos itens.



7 - O material original muitas vezes é amplo demais para ser adaptado fielmente

Falando de Marvel, por exemplo, existem até agora nos quadrinhos dois universos principais, fora outras realidades paralelas, retcons incontáveis, e algumas outras coisas de dar vergonha alheia. É praticamente impossível adaptar 50 anos de história numa franquia que dura no máximo 20 anos, lançando no máximo um filme a cada 2/3 anos e com trocas inevitáveis e as vezes infindáveis de diretores, roteiristas, além de uma demanda comercial que exige certas mudanças. Não é como adaptar graphic novels como Watchmen, Sin City e 300.




8 - Nem tudo o que funciona nos quadrinhos, funciona no cinema

Isso é uma coisa que deveria ser óbvia, mas não é.
Querendo ou não, os quadrinhos são uma mídia de "papel", com um funcionamento próprio e regras próprias.
Acontece que o cinema também tem um funcionamento e regras próprios, e estes são BEM diferentes dos quadrinhos.
Nos quadrinhos é normal ver um cara com uma máscara sem motivo algum ou uma cueca por cima da calça como uniforme. No cinema, as coisas são um pouco diferentes, afinal, a magia do cinema é justamente mostrar coisas aparentemente impossíveis como se elas pudessem acontecer no mundo real.
E no mundo real não faz nenhum sentido, por exemplo, o Wolverine usar uma máscara, uma vez que ele não é um vigilante nem um agente secreto que precisa esconder sua verdadeira identidade.
Assim como faz sentido o Dave Lizewski (de Kick Ass) usar uma máscara de mergulhador, pois ele está imitando os quadrinhos que leu, escondendo a verdadeira identidade - além de ser uma história que não se leva a sério.


Nos quadrinhos os diálogos além de simples e breves, são bem expositivos as vezes (como quando um super herói explica o que ele está fazendo com seus poderes), mas no cinema, diálogos expositivos assim, sem muitas sutileza, nunca são uma boa coisa, pois parecem estar subestimando a inteligência do público.

Nos quadrinhos, as vezes é necessário mostrar poderes que na verdade seriam invisíveis - como os "raios" cor de rosa do poder da Jean Grey - para que fique mais claro o que realmente está acontecendo. Num filme, não há necessidade absolutamente nenhuma de usar esse recurso gráfico, uma vez que neles podemos ver claramente o que está se mexendo.

Esses são apenas alguns de muitos exemplos.



9 - Fãs de HQs não são o único público dos filmes

Adaptações de quadrinhos não surgem primeiramente do desejo dos fãs.
Os filmes surgem primeiramente do desejo dos executivos de ganhar dinheiro e isso é um fato. A diferença é que alguns executivos tem uma visão mais artística, outros tem uma visão mais comercial.
Além do mais, por menos que gostem de admitir, os fãs de quadrinhos tem seu lugar, mas são a minoria do público alvo das empresas, não maioria, como parecem achar que são - a não ser que estejamos falando de filmes de baixo orçamento ou de histórias que por si só são altamente vendáveis e ainda assim há ressalvas.
Você tem um grande público que nunca leu quadrinhos, outro grande público que já ouviu falar mas não viu, outro grande público que já viu ou mesmo leu e não gostou, outro grande público ainda que gosta, mas quer ver coisas diferentes.
Além disso, uma empresa pode estabelecer um público amplo e fazer um filme família, ou pode querer tentar uma premiação ou um lugarzinho no coração dos adultos e fazer um filme mais sério e inteligente. Isso depende também da linha de pensamento do diretor e roteirista, da mensagem que querem passar e do público que querem atingir.
Junto com isso, vem também demandas sociais que acompanham os assuntos do momento. Essas demandas causam algumas das mudanças mais controversas - como a mudança de etnia do Tocha Humana no novo Quarteto Fantástico por exemplo.
Aliás sobre isso, tenho um pequeno parêntese: as pessoas sempre perguntam por quê eles mudam personagens famosos e não secundários ou criam novos para representar essas "minorias" e a resposta é simples: por que é bom pros negócios e pra sociedade trazer discussões desse tipo.

Ninguém ia discutir sobre o tema se não houvessem as mudanças.
Eles querem que as discussões aconteçam, tanto para que o filme vire assunto, tanto para que provoque esse tipo de discussão que acorda as pessoas para a realidade.
Tanto como marketing quanto como arte - afinal, arte tem isso de provocar a discussão pensante (não a discussão fan boy que as vezes rola. Então por isso essas mudanças.

Claro, os diretores gostam de presentear os nerds de plantão com easter eggs, referências e fan service, mas nem sempre isso é uma coisa boa a se fazer.



10 - A fidelidade é importante sim, mas não do jeito que você pensa

Por fim, gostaria de destacar que isso não é uma lista de desculpas para que o material original seja completamente desrespeitado. É claro e evidente que este deve ser respeitado pelo menos de uma forma básica - como disse no item 2.
A fidelidade é importante até o ponto em que é possível reconhecer na história recontada no cinema a essência do que se viu nos quadrinhos.
Acontece que nem sempre a essência é o que os fãs acham que é.

Nem sempre a aparência ou os uniformes são a essência de um personagem - claro, as vezes é sim, mas nem sempre.
Se o Homem Aranha é um Peter Parker nerd e meio atrapalhado que resolve usar seus poderes conseguidos com grandes responsabilidades e combater o crime, ser o Amigo da Vizinhança, juntamente com a origem dos poderes e seu uniforme icônico demais para ser radicalmente mudado - também não precisa ser idêntico em todos os detalhes - são a essência da história.
O Quarteto Fantástico é uma família descobridora, essa é a essência deles.
Os X-Men como heróis, acabam mais lutando pela própria sobrevivência e pelo equilíbrio entre humanos e mutantes do que salvando o mundo (como os Vingadores). Volta e meia salvam o mundo por tabela, mas eles são uma minoria perseguida pela humanidade, essa é a essência deles. Os uniformes podem ser icônicos para uma geração específica, mas existem centenas de uniformes e eles não são tão importantes assim.

O Batman é um vigilante mascarado, que combate o crime principalmente em sua cidade e cumpre um papel de detetive, além de lidar com diversos nêmesis e demônios internos. E essa é a essência dele.A essência se encontra na temática por trás da história, nos conflitos e motivações dos personagens, em alguns elementos canônicos muito fortes - tipo muito mesmo. Dentre outras coisas.

E por mais que queiramos ver certas coisas na tela, temos que sempre manter em mente que isso poderia tornar o filme ruim ou talvez deixar a história pouco vendável - e ser vendável é importantíssimo para franquias cinematográficas de grande escala.



Não quero mudar a cabeça de ninguém com esse texto - até por que, está aí algo difícil de fazer com gente cabeça dura. Mas talvez as pessoas possam passar a gostar mais de adaptações se elas entenderem esses aspectos, e entenderem que acima de tudo, cinema também é arte, não apenas entretenimento. Cinema vale a pena ser estudado, vale a pena a busca de informações sobre a forma como são feitos e pensados os filmes, o que a teoria de cinema diz sobre a qualidade de um filme, ler resenhas de críticos que não sejam nerds apaixonados pelas HQs para entender como o grande público não-fã enxerga as adaptações. Quando você faz isso, consegue ver se um filme é bom ou ruim independente do quão fiel ele é como adaptação.

Abra sua mente! Acredite, isso enriquece sua experiência com cinema e a torna bem mais divertida do que será se você insistir em esperar ver exatamente o que você leu nos quadrinhos acontecendo na telona!
Saudações!

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